Legado espiritual: o papel da mulher no futuro da humanidade

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Toda viagem é transformadora. E, dessa vez, não poderia ser diferente. Montreal é uma cidade incrivelmente acolhedora que sempre desperta o meu melhor.

Palestrei sobre o papel da mulher no desenvolvimento sustentável para um grupo de sessenta extraordinários jovens representantes de todos os países das Américas, reunidos por uma causa: promover a francofonia em suas nações e construir uma América (do Sul, Central e do Norte) mais forte e unificada. Minha alma e minha mente se expressaram com sotaque francês, e via, pelo brilho nos olhos dos representantes de minha geração, que tocava, com minhas palavras, seus corações.

Há dois anos, quando era estudante da escola de gestão da mais importante universidade francófona das Américas, não imaginaria que, tão breve, retornaria para ser a única representante brasileira a palestrar no Fórum dos Jovens Embaixadores da Francofonia na Universidade de Montreal.

Além da palestra, muitos encontros especiais ocorreram, entre eles com uma das pesquisadoras que mais marcou minha trajetória intelectual: Dr.ª Isabelle Duplessis. Com ela, viajei no tempo e estudei o papel da mulher e seus direitos na história da humanidade.

Apenas nas últimas décadas, as mulheres puderam começar a decidir por suas vidas, em algumas nações do mundo, respaldadas pelo Direito e por suas leis. Porém, por mais que existam direitos garantidos pelos Estados ou por importantes organismos, como as Nações Unidas, liberar-se das amarras internas é um dos maiores desafios das mulheres das diferentes gerações.

Culpa, modelos de felicidade, estereótipos de beleza, baixa autoestima, priorização do corpo à inteligência são alguns dos problemas que residem no mundo interior das mulheres, muitas vezes de forma inconsciente. A liberdade não é garantida apenas por condições externas, mas sobretudo pelo reconhecimento do próprio valor e da própria força. E, nesse desafio, a educação é a principal aliada.

Parece ter sido por acaso que o tema “mulher” entrou em minha vida. Pesquisadora sobre Desenvolvimento Sustentável há mais de uma década, o que me concedeu em 2011 um prêmio na sede das Nações Unidas em Genebra, compreendi que o papel da mulher é fundamental para que a humanidade possa tomar novos rumos neste planeta. Uma de minhas falas, acolhida calorosamente pelos jovens embaixadores da francofonia, foi sobre a importância do “Feminismo para o Humanismo”.

A sociedade humana foi conduzida, nos últimos milênios, sobretudo pela racionalidade masculina, um dos fatores que faz com que a humanidade esteja, ainda hoje, em desequilíbrio. Para uma nova condição socioeconômica, é fundamental que uma nova racionalidade conduza as decisões e o futuro do humano. E, para tanto, é fundamental que a mulher possa fazer escolhas com base em sua identidade de natureza, para além dos estereótipos sociais.

Coincidentemente, exatamente nessa mesma semana, as redes sociais estavam fervorosas sobre as possibilidades de escolha da mulher, em especial no que diz respeito à maternidade. O depoimento da atriz americana Jennifer Aniston, que afirmou: “não estou grávida, estou farta”, ecoou em muitas mulheres, que sentem a pressão, ainda em pleno século XXI, sobre a escolha de ser – ou não – mãe. Aliás, vale a leitura da resportagem “NoMo: as mulheres que não querem filhos (e querem respeito!)”  (http://mdemulher.abril.com.br/familia/m-trends/as-mulheres-que-nao-querem-filhos-e-querem-respeito). O texto e o vídeo discorrem, com bastante propriedade, sobre as NoMo (No Mothers).

Nesse contexto, é fundamental conhecer a história para compreender o presente. Por milênios, a função e o reconhecimento social da mulher estavam relacionados ao ato biológico de parir. Na antiga Grécia, as mulheres, que não tinham acesso à educação, conquistavam prestígio se dessem à família filhos homens. Muitas meninas que nasciam eram abandonadas, jogadas no meio das selvas, pois, afinal, “a mulher é um ser não dotado de alma, inferior”, como diziam os filósofos e a sociedade da época. Portanto, o ato de gerar filhos, em especial homens, estava relacionado, na maioria das civilizações, à sobrevivência e ao reconhecimento da mulher.

Sem compreender esse passivo histórico, não é possível compreender o peso que, ainda hoje, reside no inconsciente coletivo social, transmitido de geração à geração. E é hora de a mulher ser dona de sua vida e de suas escolhas para poder conduzir a humanidade ao equilíbrio. Mas, para isso, é necessário livrar-se das amarras internas e, com amor e paciência, compreender a riqueza do próprio mundo interior bem como da própria e exclusiva inteligência individual.

Tenho acompanhado um fenômeno que, no meu entendimento, não por acaso ocorre com muitas mulheres de minha geração: a infertilidade. As causas são inúmeras, desde a decisão mais tardia de engravidar até possíveis impactos do estilo de vida da nossa civilização atual (alimentação, agrotóxicos, estresse, por exemplo).

Tenho escutado, como consultora pessoal ou como mais uma mulher no universo feminino, o depoimento de muitas mulheres sobre isso. As que não têm conseguido engravidar – nem de forma natural, nem estimuladas pelas avançadas técnicas da medicina – carregam uma culpa que pesa na alma… “Não sou capaz de gerar nem de conceber uma vida”, “tenho problemas”, “nunca vou experimentar a maternidade”, “não conhecerei o verdadeiro amor” e “não alcançarei a felicidade suprema” estão entre as frases mais recorrentes. E, como pesquisadora social, tenho refletido muito sobre esse fenômeno e tentado encontrar os porquês.

Entre minhas hipóteses, gostaria de expor aqui que uma das possíveis causas pode não estar sendo vista, nem mesmo observada ou refletida: a necessidade do legado espiritual e da redução da população sobre este planeta. Sim, a população já extrapola os limites do planeta. Sim, precisamos ultrapassar o legado biológico imposto à mulher nos últimos milênios e passar a construir o legado espiritual, em especial as mulheres mais sensíveis, que buscam deixar algo após suas passagens neste planeta.

Me explico melhor. Estive observando, ao escrever este texto, que as mulheres que mais admiro coincidentemente possuem uma característica em comum: não tiveram ou educaram filhos biológicos e deixaram legados espirituais. Ou seja, dedicaram suas existências a historicizar o mais profundo de suas almas por meio da expressão artística (literária ou musical) e educacional.

Simone de Beauvoir (1908-1986), ícone feminista que escreveu alguns dos pilares fundamentais para o papel que a mulher vive hoje. Seus livros traduzidos em diversas línguas se comunicam com mulheres de todo o planeta.

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Maria Callas (1923-1977), a Divina, uma das vozes mais belas e cristalinas, que ainda hoje encanta e inspira milhões de seres humanos.

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Rainha Cristina da Suécia (1626-1689), amiga de Descartes, decide por abdicar do trono para manter seus mais profundos valores. Após deixar a Suécia, Cristina vive em Roma, onde se torna mecenas da arte. O filme “Rainha Cristina” é magnificamente interpretado por Greta Garbo.

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Jane Austen (1775-1817), autora de obras como “Razão e Sensibilidade”, foi uma mulher além de seu tempo, em que já criticava os padrões sociais e o casamento baseado em posses e acreditava na força do amor. Sua vida é interpretada por Anne Hathaway no filme “Amor e Inocência”.

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Marguerite Baranktise (1957 – ), sobrevivente de uma chacina da guerra civil em Burundi, África. Sua dor é transformada em força e constrói uma escola, a Casa Shalon, pelo qual passaram, nos últimos vinte anos, mais de 30.000 crianças e jovens, que tiveram um caminho digno em suas vidas. Sem filhos biológicos, Marguerite é denominada de “a mãe nacional” e auxilia a criar uma nova geração, que diz “não” às injustiças da guerra.

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Ana Paula Padrão (1965 – ), uma das maiores comunicadoras e jornalistas do Brasil. De uma inteligência refinada, como muitas mulheres de sua geração, questionou os modelos do ser mulher na contemporaneidade. Um de seus mais belos projetos, co-criado com a gigante Natalia Leite, contribui com a vida de centenas de milhares de mulheres, a Escola de Você.

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Por escolha, optei ser uma geradora de projetos e de contribuição para a melhoria deste planeta. Muito além de uma postura egoísta, essa é uma escolha existencial, extremamente prazerosa e altruísta. E cada vez mais mulheres de minha geração têm optado por esse caminho. Claro que posso mudar de ideia, e é tão bom mudar! Mas o mais importante é ter o poder e a liberdade de fazer escolhas.

Infelizmente, milhões de mulheres no planeta ainda não possuem a condição de escolha, seja por aspectos culturais e legais, seja por falta de acesso à educação (formal e moral) ou a métodos contraceptivos. Mas, aos poucos, devemos mudar essa condição; afinal, uma cultura milenar requer tempo para ser transformada.

O mais importante é saber escolher com base no chamado que a vida nos faz. Muitas mulheres sentem o chamado para conceber, gerar e educar um (ou mais de um) ser humano como forma de contribuição para uma humanidade melhor (não como forma de compensação afetiva nem de preenchimento de um vazio na própria vida). Por sua vez, muitas outras sentem o chamado metafísico (além do físico) e necessitam – assim como as primeiras – possuir a coragem de assumir suas escolhas. Há ainda aquelas que escolhem as duas possibilidades e executam, com maestria, suas missões. Nenhuma mulher é mais especial do que a outra. Nenhuma mesmo. O imprescindível está em reconhecer o chamado que a vida faz e ser humilde diante disso.

O legado espiritual, que perpassa o tempo e contribui com as futuras gerações, é uma das formas da fertilidade feminina. Estamos intrinsicamente vinculadas à inteligência da Terra, a qual, ao acolher uma semente, gera as maravilhas que nos cercam. Nós mulheres podemos acolher uma semente em nosso corpo ou em nosso espírito, e essa é nossa maior força.

* Este texto teve a contribuição da super Janaína Lemos Becker, Dr.ª em Linguística Aplicada, por meio das inúmeras conversas que tivemos sobre o tema, a partir das suas experiências de vida, e também pela primorosa revisão linguística 🙂 Cabe ainda ressaltar que o termo “espiritual” nesse texto é compreendido em sua concepção laica, baseada em meus estudos em filosofia, psicologia e metafísica.

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